Março/2024  Psicologia/Psicoterapia

 

As Três Senhoras

texto de André, meu paciente

sobre Angústia, Tristeza e Saudade

 

As Três Senhoras 2.jpg

O texto do André – nome fictício do meu paciente – surgiu depois de uma de nossas sessões. Tratávamos do tema da desmotivação e desânimo, que vinham tomando conta do seu humor.

 

Num aparente ato falho, ele falou em melancolia. E se deu conta de que não era o caso, mas sim uma memória que o fazia questionar seus projetos e atividades recentes. Era a memória de uma grande perda, cujo luto ainda lhe trazia a tristeza e suas companheiras, mesmo que afirmasse que o luto já havia acabado.

 

André é um jovem muito inteligente, sensível e trilha o caminho da arte. Daí sua facilidade em produzir num repente o texto que compartilho com vocês.

 

As Três Senhoras

por André

 

Engraçado… um dia quando acordei escutei três vozes (conhecidas de longa data já) fofocando sobre a vizinhança, reclamando do tempo e tomando café.

 

Mas, estranhamente essas vozes vinham do meu peito.

 

A primeira que falou foi Dona Tristeza, velha conhecida minha. E, quando falava, enchia meu peito com um frio desagradável, subia pra garganta, fazia um nó lá e fazia questão de demorar pra ir embora.

 

Logo em seguida, saudosa, nostálgica e calorosa, com uma voz potente, veio Dona Saudade para esquentar a conversa, colocar um cobertorzinho no coração e falar dos velhos tempos entre risadas do que já foi. O ruim é que Dona Saudade tem que sair rapidinho, mas sempre que pode, faz uma visita.

 

E silenciosa, mas tão atenciosa quanto as duas, Dona Angústia sempre está lá, independente se é Dona Tristeza ou Dona Saudade que esteja acompanhando. Fala pouco e com muita sabedoria… nunca entendo o que diz de primeira, mas suas palavras fazem refletir bastante e pensar que a vida não é tão “preto no branco” mas alguns tons de “cinza”.

 

Sobre o Luto, a Desmotivação e o Desânimo

 

Desmotivação é falta de motivação. A motivação nos faz entrar em ação para conseguir o que desejamos.

 

Estar animado é ter energia e vitalidade para entrar em movimento, para obter o prazer, que o desejo pressupõe.

 

A motivação aciona a energia que nos impulsiona em direção ao objeto amado. Freud denominou esta energia de libido. 

 

Quando conseguimos o objeto amado, nos sentimos animados, mesmo que o prazer não tenha sido como esperávamos.

 

Quando não conseguimos o objeto amado idealizado ou quando o perdemos, nos sentimos desanimados e não raro vivenciamos o processo de luto em relação ao objeto.

 

O processo de luto nos cobra integrar e dar um sentido à perda sofrida, o que muitas vezes parece ser uma tarefa impossível.

 

A vivência do luto depende da dinâmica psicológica e da singularidade de cada pessoa. O luto demanda que a libido investida anteriormente no objeto amado perdido seja investida em um novo objeto. Quando a libido permanece presa ao objeto perdido por tempo demasiado, gera a melancolia, como postulou Freud.

 

De forma bastante simplificada, o luto tem três etapas principais: negação, revolta e tristeza.

 

A dificuldade de aceitação da perda, nos leva a negá-la. Uma vez conscientes da perda, a revolta toma conta de nós. E depois da revolta, vem a tristeza que costuma ser a etapa mais demorada do processo.

 

Quando os pacientes enlutados me perguntam quando é que a tristeza vai passar, eu costumo dizer que isto acontece quando a tristeza cede seu lugar à saudade. A saudade costuma nos trazer as boas memórias das experiências vividas com o objeto amado. Traz também a gratidão pela oportunidade destas vivências e a sabedoria que nos possibilita compreender a finitude da natureza humana e dos objetos aos quais nos apegamos.

 

A Resolução do Luto

 

Resolução saudável: a tristeza aparece cada vez menos, e a saudade vai tomando seu lugar. A libido é investida em um novo objeto amado. Nos sentimos animados com a nova motivação.
 

Resolução patológica: a tristeza permanece presente, a melancolia se apresenta. A libido continua investida no objeto amado perdido, gerando desmotivação e desânimo.

 

Um pouco mais sobre As Três Senhoras

 

Escrever um pouco mais sobre as três senhoras, sem a capacidade artística do André, me parece uma tarefa muito difícil. O que vou adicionar é mais conceitual, com a intenção de respaldar o raciocínio clínico que utilizo nas sessões de psicoterapia.

 

 

Dona Angústia

Senhora Angústia.png

A palavra alemã “angst” utilizada por Freud foi traduzida de formas diversas. Foi associada a medo, ansiedade e angústia (no português).

 

Segundo o DSM V: “Medo é a resposta emocional à ameaça iminente real ou percebida, enquanto Ansiedade é a antecipação de uma ameaça futura.”

 

Angústia é um afeto.

 

A angústia gera uma sensação de perigo para o sujeito. Ela surge para apontar a iminente possibilidade da perda do objeto amado ou para nos lembrar de que o perdemos.

 

Ela nos coloca em contato com a incapacidade de preservarmos o objeto amado e também em contato com a incapacidade de mantermos aquilo que achamos essencial para que tenhamos satisfação, alegria e prazer na vida
 

 

Dona Tristeza

Senhora Tristeza.png

A tristeza é uma sensação básica. Ficamos tristes todos os dias.

 

Em sua forma mais intensa e duradoura, está presente na terceira etapa do processo de luto, quando nos conscientizamos da perda do objeto amado.

 

Dependendo da intensidade e do período de duração, a tristeza pode gerar o estado depressivo.

 

Quando estamos tristes, estamos em contato com a dor da ausência do objeto amado. Se não tivermos outros objetos amados, reduzimos significativamente a atividade e temos dificuldade de obter satisfação, prazer e alegria.

 

É relevante dizer que é necessário vivenciar a tristeza, que faz parte da vida. Negar a tristeza é negar nossa natureza humana. Também é relevante dizer que a tristeza não é um transtorno depressivo, como muitos querem nos fazer crer.

 

O mundo do glamour, do prazer constante e da obrigatoriedade da alegria divulgado pelos veículos de comunicação, em especial a mídia digital, é uma ilusão.

 

Num mesmo dia passamos por períodos de depressão e de euforia. Isso sim, é a realidade que percebemos.

 

 

Dona Saudade

Senhora Saudade.png

Segundo o Dicionário Aurélio, saudade é um sentimento de nostalgia causado pela ausência de algo, de alguém, de um lugar ou pela vontade de reviver experiências, situações ou momentos já passados.
 

A palavra nostalgia se refere a disfunções comportamentais causadas pelo isolamento em relação à terra natal ou à família de origem.

 

No contexto deste informe, a saudade é sentida pela falta do objeto amado, e se apresenta como uma tristezinha que não causa prejuízos ao nosso desempenho na vida.

 
Tendo dado um sentido à perda do objeto amado, elaborado o luto, é comum que a saudade venha acompanhada da gratidão.

 

 

E nas sessões de psicoterapia ...

 

A experiência clínica mostra que as queixas de angústia, tristeza e saudade costumam ter em comum a baixa motivação e a menor produção.

 

Angústia diminui a ação pela dúvida: “Será que vale a pena?”
 

Quando a Tristeza está presente, parece que a vitalidade foi embora e não há ânimo para se fazer o que precisa ser feito. Desejo então, quase que desaparece.

 

A saudade nos traz memórias do passado, tempo em que as coisas eram – parecem que foram -  melhores e sentimos que   “Nada será como antes ...” como cantam Milton Nascimento e Lo Borges

 

Assim como aconteceu com André, ao falar da angústia que sentem os pacientes inconscientemente colocam a mão direita no peito, sobre o osso externo, um pouco mais para o lado do coração.

 

Na sessão com André, quando analisamos juntos o que o fazia se sentir desanimado e desmotivado, ele percebeu que, escondidas lá dentro da casa torácica, bem atrás do externo, as Três Senhoras ali conversavam.

 

Referência bibliográfica:

 

Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - 5a Edição - DSM-5®

 acessada em 22 de março de 2024

 

Conceito de Objeto e de Pulsão

Transcrição do texto do Vocabulário da Psicanálise de Laplanche e Pontalis

(recorte do texto para complementar a leitura do Informe "As Três Senhoras")