Novembro/2023: Psicologia/Trauma

 

Memória Traumática
"o que crianças traumatizadas podem nos ensinar sobre perda, amor e cura"

 

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Este informe apresenta alguns conceitos básicos sobre a memória e sua relação com os efeitos pós-traumáticos. Seu propósito é colaborar com os cuidadores e quaisquer pessoas que se relacionem com crianças traumatizadas a perceber sintomas pós-traumáticos, acolher e promover o tratamento dessas crianças.

 

Muitos eventos traumáticos que acometeram as crianças compõem segredos de família. Os adultos cuidadores se sentem constrangidos e culpados pelo infortúnio de não terem evitado a situação de terror vivida pela criança. Vale registrar que a culpa sentida pelos adultos não ajuda as crianças. A culpa deve ser posta de lado e ser substituída por um pedido de perdão e pela reparação do eventual dano causado pelo evento traumático.

 

Presente de meu filho psiquiatra, o livro "O Menino Criado Como Cão", de autoria de Bruce D. Perry, psiquiatra, e da jornalista Maia Szalavitz, relata o que crianças traumatizadas podem nos ensinar sobre perda, amor e cura. Este informe foi composto com recortes, edições e adições dos casos e conceitos apresentados no livro. 

 

“O que determina como a criança sobrevive a um trauma físico, emocional ou psicológico é se as pessoas que a cercam, em particular os adultos em quem confiam e com os quais contam, permanecem ao lado delas para amá-las, apoiá-las e incentivá-las.

 

Assim como fogo pode aquecer ou consumir, a água pode matar a sede ou afogar, o vento pode refrescar ou destruir. Assim também são os relacionamentos humanos: tanto podemos criar ou destruir, alimentar ou aterrorizar, traumatizar ou curar nosso próximo.”

                                                           
  Bruce D. Perry      

 

Trauma e Memória

 

Para entender um trauma, é preciso entender a memória.

 

Para avaliar a maneira que as crianças se recuperam de eventos traumáticos, temos que entender a forma que aprendem a amar, como enfrentam desafios, como lidam com o estresse. Ao reconhecer o impacto destrutivo que a violência e as ameaças podem causar na nossa capacidade de amar e trabalhar, conhecemos melhor a nós mesmos e cuidamos melhor das pessoas que nos cercam, em especial das crianças.

 

Costuma-se associar a memória a nomes, fisionomias, números de telefone, mas ela é muito mais que isso.

 

A memória é uma propriedade básica dos sistemas biológicos. É a capacidade de fazer avançar no tempo algum elemento de uma experiência. Até os músculos têm memória,

como se vê nas mudanças que acontecem ao nos exercitarmos.

 

A memória é o que o cérebro faz, o modo que ele nos compõe. Ela permite que o nosso passado ajude a determinar o futuro. A memória faz de nós o que somos. As memórias dos eventos traumáticos são obstáculos que podem ser superados com o devido processo psicoterapêutico.

 

Devemos levar em conta que para compor a memória o cérebro cria “associações”. Isto acontece quando dois padrões de atividade neural ocorrem simultânea e repetidamente.

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Por exemplo, se a atividade neural causada pela imagem visual de um carro de bombeiros e pelo som de uma sirene ocorrem repetidamente, cadeias neurais antes isoladas (redes neurais ligadas à imagem e ao som) criam novas conexões sinápticas e formam uma rede única e interligada. Ao se criar este novo conjunto de conexões entre redes visuais e auditivas, basta estimular uma parte. Neste caso, basta ouvir a sirene, para ativar a parte visual da cadeia, e a pessoa associará automaticamente o carro de bombeiros.

 

Essa fantástica propriedade de associação é uma característica universal do cérebro. É através dessa associação que combinamos os sinais sensoriais que recebemos de fora – som, imagem, tato, olfato e paladar – para compor a memória de uma pessoa, de um lugar, de um objeto, de uma ação. A associação possibilita e fundamenta tanto a linguagem quanto a memória.

 

O caso Tina

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Dr. Perry relata em seu livro o caso Tina. Quando trabalhou com Tina, ela era uma menina de 6 anos, que havia sido abusada por 2 anos, dos 4 aos 6 anos, por um garoto de 16 anos, filho da mulher que cuidava dela, enquanto sua mãe solteira trabalhava para sustentá-la e também ao seu irmão menor.

 

Para Tina os homens maiores que ela eram ameaçadores, criaturas perigosas que a forçavam a fazer sexo. Os cheiros, as imagens e os sons associados a isso formavam a composição de um conjunto de “padrões de memória” usados por ela para entender e atuar no mundo.

 

Assim, quando se via na companhia de um homem, era perfeitamente natural entender que era sexo o que ele queria. Quando estava na escola e se expunha e se envolvia em brincadeiras sexuais com outra criança, ela repetia o que sabia sobre como se comportar. Ela não fazia nada intencionalmente. Eram comportamentos causados por suas associações tóxicas, pelo padrão distorcido de sexualidade que aprendeu.

 

Para tratar Tina, foi necessário mostrar a ela que existem situações em que a atividade sexual é imprópria e ajudá-la a aprender a resistir aos seus impulsos. Era fundamental substituir o padrão impresso no frágil tecido de seu cérebro jovem, gravado a ferro e fogo com experiências aterrorizantes, repetitivas e padronizadas, que ela viveu numa idade muito precoce.

 

As crianças são resilientes?

 

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Já ouvi muitos cuidadores adultos dizerem que as crianças dão seu jeito, pois são resilientes. Pare eles, se não fossem resilientes, as crianças não sobreviveriam. Porém, é relevante registrar que as crianças são mais vulneráveis aos traumas que os adultos.

 

A resiliência da criança é aprendida, não é inata. Um cérebro em desenvolvimento é mais maleável e mais sensível às experiências – boas e ruins – do início da vida.

 

Aprendemos tão rápido e com tanta facilidade a falar, as nuances sociais, as habilidades motoras e dezenas de outras coisas na infância, e por essa razão, essas são as chamadas experiências “formativas”.

 

As crianças se tornam resilientes em razão de padrões de estresse e de estimulação recebidos no início da vida. O resultado disso é que também somos transformados rápida e facilmente pelos traumas da infância e juventude. Embora esses efeitos não sejam evidentes a um leigo, se soubermos o que um trauma pode causar em uma criança, veremos suas consequências em todo lugar.

 

 

Reação do cérebro à situação de ameaça

 

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Em qualquer idade, se a pessoa vivenciar uma situação ameaçadora, o cérebro fechará primeiro as regiões corticais superiores. Com isso a pessoa perde a capacidade de planejar e a vontade de comer porque nada disso tem utilidade para sua sobrevivência imediata. É comum perder também a capacidade de “raciocinar”, e até mesmo de falar quando a ameaça é muito grave.

 

A pessoa apenas reage. E, se o terror se prolongar, o cérebro poderá sofrer alterações crônicas, eventualmente permanentes.

 

As alterações que resultam de um pavor prolongado, principalmente no início da vida, podem causar mudanças duradouras, tais como, formas de agir mais impulsivas, mais agressivas, menos racionais e menos solidárias.

 

 

Efeitos do trauma na vida social humana

 

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A vida social humana é construída sobre a habilidade de um “refletir” o outro e reagir aos reflexos. Os resultados podem ser positivos e/ou negativos.

 

Por exemplo, se estamos nos sentindo muito bem e no trabalho encontramos o chefe de mau humor, logo nos sentimos péssimos também. Se o professor está zangado e contrariado, os alunos começam a se comportar mal, em reflexo à forte emoção expressa pelo mestre.

 

Para acalmar uma criança assustada, primeiro temos que nos acalmar.

   

O reconhecimento da força dos relacionamentos e dos sinais relacionais é essencial para a eficácia da paternidade, da educação, da instrução e do empenho humano. E também para a eficácia de um trabalho psicoterapêutico para o tratamento do transtorno do estresse pós-traumático.

 

Criar um ambiente seguro e acolhedor é fundamental quando nos relacionamos – terapeuticamente ou não - com crianças, jovens e adultos traumatizados.

 

 

E nas sessões de psicoterapia ...

 

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“Trabalhar com pessoas que foram abusadas é fazer com que os abusos não sejam a sua vida, mas uma cicatriz em sua vida.”

 

Silvia V. Pugliese, psicóloga     

 

 

Registramos citações já publicadas em nosso site. São reomendações de Maurizio Stupigia em seu livro "O corpo Violado":

 

"O que o trauma separa, a terapia deve reconectar."

 

"É importantíssimo iniciar a eventual exploração do passado traumático em condições de “segurança relacional” com o terapeuta."

 

"A condição de segurança da terapia não é algo apenas importante, mas absolutamente necessário, e torna-se parte integrante da própria intervenção, visto que o objetivo é recuperar tudo o que foi destruído."

 

"É característica crucial do passado do abusado, a sensação de estar separado de si mesmo, raptado de si, como se uma força tremenda e desconhecida executasse uma mágica instantânea e a pessoa se achasse estranha a si mesma."

 

Referência bibliográfica:

 

O menino criado como cão

Bruce D. Perry, MD, Phd  e  Maia Szalavitz; tradução de Vera Caputo. São Paulo, SP: nVersos Editora, 2020

 

O corpo violado: uma abordagem psicocorporal do trauma do abuso

Maurizio Stupiggia; tradução de Roberto Chiattone e Nelson Patriota. Natal, RN: EDUFRN, 2010

 

O Caso Bá: Libertação do Trauma de Abusos Sexuais sofridos na Infância e Puberdade