Junho/2022: Psicologia

 

O Caso Bá
Libertação do Trauma de Abusos Sexuais sofridos na Infância e Puberdade

 

Apresentamos O Caso Bá no III Congresso Latino-Americano de Psicologia Corporal, realizado de 2 a 4 de junho de 2022. O tema foi “Enraizamento no Pulsar da Vida”. Palestras, diálogos, oficinas vivenciais e momentos culturais compuseram o congresso, que contou com a participação de profissionais nacionais e internacionais da psicologia clínica, da filosofia, das áreas educacional e social, das abordagens psicocorporais, das artes e de outras áreas complementares. A tônica do congresso foi o compartilhamento e a troca de saberes atualizados e interculturais.


Neste informe, compartilhamos a apresentação que Bá (nome fictício da minha paciente) e eu fizemos. Mostramos um recorte do trabalho psicoterapêutico, iniciado em março de 2015 e ainda em andamento. O tratamento dos abusos sexuais sofridos por Bá na infância e na puberdade foram o tema da nossa apresentação, com ênfase nos exercícios corporais utilizados.

 

Bá participou ativamente da elaboração da apresentação e contou no congresso como foi sua experiência psicoterapêutica.
 

 

“Pretendo aqui dividir parte da minha história com vocês, espero que de alguma forma ela ajude pessoas que passaram, passam e infelizmente ainda vão passar pela situação que aconteceu comigo e como a Bioenergética pode ajudar as pessoas traumatizadas.”

Bá   

 

O Caso Bá - Abusos e Consequências.jpg

O Relato dos Abusos

 

“Relatar os vários abusos sofridos na minha infância e puberdade, é sempre complicado, porque não fica claro, se foi real ou não.

 

Lembro-me de estar brincando, tinha uns 5 anos, morávamos em um quintal com várias casas. Em uma destas casas morava um casal e uma filha, brincávamos juntas. Quando a mulher dele saia, ele prontamente dizia para não se preocupar que tomaria conta de nós duas. Ele colocava a filha dele para dormir, e eu na cama de casal. Ele tirava a roupa, ficava apenas de cueca, fechava tudo, deixava apenas um rastro de luz que eu via lá no fundo. Pedia para que eu deitasse do lado dele. Eu obedecia. Cobria-nos com o cobertor e pedia para eu ficar quietinha. Eu não entendia o que ele estava fazendo, mas sabia que era errado, e mesmo assim não conseguia sair dali gritando e contando para todo mundo. As minhas lembranças vão até aí, sinto como se houvesse um desmaio e acordasse tempos depois. Não sei dizer quantas vezes, quanto tempo, sei que moramos lá durante um tempo.
 

Na puberdade, minha mãe pedia para fazer as compras de casa, Um senhor que parecia o Genival Lacerda, me dava pirulito, balas, sempre algum doce, eu ia feliz e contente para casa. Um dia ele começou a me abraçar, apertar minhas bochechas, passar a mão nos meus cabelos. Até aí estava tudo bem, sentia como um carinho paterno. Quando percebeu que tinha ganhado minha confiança, os abraços e os carinhos tornaram-se cheios de malícia e maldade, Nesses abraços ele arrumava um jeito de tocar meus seios. Sentia muita raiva e o medo me paralisava. Estava novamente no mesmo lugar, no quarto escuro. Outra vez não conseguia fazer nada. A culpa vinha e as incertezas também. Não tinha reação nenhuma. Então transferi a raiva para minha mãe, que passei a culpar por me mandar fazer compras.”

Bá   

 

O que os abusos causaram a Bá

 

“A tristeza tomou conta do meu ser. Não conseguia administrar minhas emoções, tinha choros frequentes, pesadelos, não conseguia dormir, tinha medo do escuro, fortes dores de cabeça.
 

Tornei-me uma pessoa irritada, nervosa e desconfiada. Sentia raiva do mundo, de mim, da minha mãe. Sentia nojo do meu corpo e do meu ser.

 

Minhas pernas perderam a força. Elas não sustentavam o peso do meu corpo. Caia com frequência e sem motivos.

 

Sexualmente o meu corpo ficou comprometido e minha comunicação verbal também.


Todas as vezes que algum fato me traz essas memórias dos abusos experiencio a mesma angústia do momento do abuso.”

Bá   

 

Fase Inicial do Processo Psicoterapêutico

 

Bá estava com 43 anos quando iniciamos a psicoterapia. Era esposa, mãe de uma criança e de um adolescente, e responsável pela maior parte da renda familiar.

 

Os principais sintomas percebidos no início da psicoterapia foram:
 

- Tristeza

- Dificuldade de dormir e pesadelos

- Medo do escuro

- Inquietação

- Irritação

- Desconfiança, em especial em relação aos homens

- Raiva da mãe

- Dificuldade de lidar com suas emoções

- Fortes dores de cabeça

- Dificuldade de lidar com o próprio corpo

- Escondia-se, usando roupas largas 

- Não tinha sustentação nas pernas

- Caia sem um motivo que justificasse a queda, chegando a se machucar


A hipótese de que Bá teria sido abusada sexualmente foi ganhando força com o decorrer das sessões.  
 

 

"O corpo Violado"
Recortes do livro de Maurizio Stupigia

 

"O abuso sexual é um trauma relacional e precisa ser enfrentado com os devidos cuidados que se adotam com os traumas, com a complicação adicional de ser esse trauma particular: acontece no interior de uma relação, mesmo que seja única e ocasional, e acarreta com isto todas as consequências presentes nas relações destrutivas."
 

"É importantíssimo iniciar a eventual exploração do passado traumático em condições de “segurança relacional” com o terapeuta."
 

"É característica crucial do passado do abusado, a sensação de estar separado de si mesmo, raptado de si, como se uma força tremenda e desconhecida executasse uma mágica instantânea e a pessoa se achasse estranha a si mesma."

"A condição de segurança da terapia não é algo apenas importante, mas absolutamente necessário, e torna-se parte integrante da própria intervenção, visto que o objetivo é recuperar tudo o que foi destruído."

 

"O que o trauma separa, a terapia deve reconectar."
 

 “Não é possível, ou, pelo menos, é pouco funcional, tratar os pacientes que apresentam passado de abuso sexual sem uma atenção particular e específica ao corpo. O núcleo central da experiência traumática é um ataque violento à pessoa, no sentido de sua integridade corporal.”
 

Exercícios corporais utilizados

 

Quando nosso vínculo havia criado um ambiente seguro, apresentei à Bá os prováveis benefícios dos exercícios corporais. Com sua costumeira coragem e impulsividade, ela concordou.

 

Partindo do relato de Bá, seguem alguns dos exercícios corporais da Bioenergética e do TRE (Trauma Release Exercises)  que utilizamos.

O Caso Bá - Respiração Abdominal.jpg

Ao praticar a respiração abdominal, às vezes tinha tonturas. A respiração me levava a lugares que eu não conseguia reconhecer, uma dor sem fim, um medo paralisante. Eu não conseguia seguir com respirações profundas e uniformes.

 

A situação era tão angustiante que queria desistir. Mas o que fazer? Eu procurava algo que desconhecia, mas sentia que tinha que seguir. Então decidi me exercitar o máximo possível, na minha rotina.

 

A respiração me trouxe consciência de mim mesma e do meu corpo, fez parte do processo de criação da minha identidade corporal.

 

À medida que assumi o meu corpo através dos exercícios respiratórios, havia um movimento dentro de mim. Fiquei mais agressiva, mais inquieta e comecei a ver coisas que não via. Isso me causou alguns problemas. Perdi amizades, emprego. Deveria estar triste, porém sentia-me feliz. Sentia-me livre.”

 

O objetivo de estimular Bá a respirar no abdome era fazê-la perceber sua vitalidade.

 

Com o tempo, Bá me disse que se sentia mais apropriada de seu corpo e mais livre.

O Caso Bá - Grounding em Pé.jpg

“Com os pés plantados no chão, sentia meu corpo mais alinhado, mais segura, sentia meus pensamentos e sentimentos conectados, estava presente na ação. Às vezes me surgiam pensamentos fluidos que depois eu levava para discutirmos na sessão.

 

Esses exercícios foram fundamentais. Comecei a lidar melhor com meus processos internos e externos, a sair do passado e ir em busca do presente, a distinguir o que é meu e o que é do outro.

 

Senti meu corpo morto por muito tempo, hoje faço o possível para que ele Viva e Vibre.”

 

Com os exercícios de grounding, pudemos perceber que o corpo de Bá vibrava até a região pélvica. Era o limite para ela. Havia uma cisão ali.

O Caso Bá - Grounding com o Pe nas costas do Psicoterapeuta.jpg

“Percebendo minhas dificuldades com a respiração, meu terapeuta propôs fazermos o Grounding de Coluna com os pés nas suas costas, para sustentação da minha confiança.

Após a prática do exercício sentia-me mais energizada e confiante. Sentia que poderíamos caminhar mais um pouco. íamos alternando entre exercícios de respiração e grounding.”

 

Fazer o grounding deitada e com os pés apoiados em minhas costas, ajudou Bá a romper o bloqueio do fluxo de energia, que ocorria na altura da pélvis. Também permitiu que ela pudesse tocar minhas costas, num contato em que ela tinha o controle da situação.

O Caso Bá - Anel Ocular Olho-no-olho.jpg

“Esse exercício particularmente foi o que me causou mais pavor, tinha muita dificuldade em fazer o contato visual.

 

Sentia-me tonta, com dores na nuca, meus olhos doíam, minha respiração ficava curta, mas tolerável.”

 

O contato olho-no-olho traz a memória do terror. Este contato trouxe para Bá a oportunidade de perceber que o terror sofrido estava no passado, que poderia integrá-lo à sua história.

 

Estando num ambiente seguro, Bá lidou com suas memórias, em grounding. Sentiu novamente o pavor, mas também sentiu a potência de mulher adulta que habita seu corpo. Compreendeu que era capaz de "dizer não", se quisesse parar o exercício.

 

Esta Reexperiência Sensorial trouxe um considerável avanço ao processo  psicoterapêutico.

O Caso Bá - TRE Cadeira.jpg

“No início foi estranho fazer o TRE. Eu não entendia o sentido e nem as vibrações do meu corpo. A sustentação das pernas era muito difícil para mim. Com o tempo e repetição, fui internalizando o exercício, passei a perceber o que a energia estava fazendo: subia, descia, esquentava, gelava. Isto me dava sensações de medo e de prazer.”

 

Bá já tinha vivenciado os efeitos benéficos da boa respiração e do grounding. Com o TRE ela experienciou sensações mais intensas de medo, e também de prazer.

 

O Caso Bá - TRE Borboleta.jpg

“Minha prática deitada, na posição borboleta é mais confortável, sinto-me mais calma e a respiração flui melhor.

 

A vibração me deixa agitada, começa sútil, dentro, e vai aumentando até se tornar perceptível fora.

 

Não estou acostumada a sentir-me livre, sou controladora e a vibração é o oposto, controle e vibração não combinam.

 

A briga da mente e corpo são intensas, tento equilibrá-los, processo nada fácil, sempre na intenção da vibração corporal livre. 

 

Continuo fazendo, com dificuldades, mas me sentindo cada vez mais viva: com disposição, uma alegria que emana do meu ser. Esta vibração traz vida para o meu corpo, traz força, garra.”

 

Foi muito especial para mim ver o corpo de Bá vibrando por inteiro.

Como Bá se sentia
em 4 de junho de 2022

 

“Venho buscando uma melhora da minha saúde há muito tempo: espiritual, corporal, mental ...quero me tornar uma pessoa integral. Ser uma Bá nova, mais confiante e não mais guiada pelo trauma.

 

Saí da vida corporativa, estou fazendo Faculdade de Psicologia, quero trabalhar na área clínica, com trauma.

 

Minha saúde estava muito ruim. Agora estou bem.

 

Fiz cirurgia bariátrica ... não queria esperar a mudança corporal, pois não conseguia mais me identificar com a imagem que via no espelho. Minha imagem não combinava com o meu novo interior.


Estou bem melhor de saúde. Fiz tudo o que estava ao meu alcance e quero seguir em frente.”

O Caso Bá - A nova Bá.jpg

Bá havia compreendido o conceito de Saúde da OMS: buscava o "completo bem-estar".

 

Ela escolheu a imagem de guerreira que ilustrou a nossa apresentação. É graças à sua garra que podemos compartilhar o seu empenho em ter o “completo bem-estar”.

 

Estive presente em momentos de grande dificuldade para ela, sempre persistente e empenhada em vencer o terror, que ainda mora em seu corpo, mas não é mais tão aterrorizante assim.

 

O desejo de compartilhar sua história é um ato de muita coragem, solidariedade e generosidade.

 

Tenho o privilégio de colaborar com ela e acompanhá-la em sua trajetória.

 

A Psicoterapia Corporal Bioenergética fez de Bá uma pessoa bem diferente da Bá que conheci em 2015.

 

Referências bibliográficas:

 

O corpo violado: uma abordagem psicocorporal do trauma do abuso

Maurizio Stupiggia; tradução de Roberto Chiattone e Nelson Patriota. Natal, RN: EDUFRN, 2010

 

Exercícios de bioenergética: o caminho para uma saúde vibrante

Alexander Lowen e Leslie Lowen; [tradução de Vera Lúcia Marinho, Suzana Domingues Castro]. São Paulo: Agora, 1985

 

Exercícios para libertação do trauma

David Berceli; tradução: Amadise “Tai” Silveira. Recife: Libertas, 2010

 


Jaimildo Vieira da Silva - CRP 6/89557
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