Setembro/2021

Psicologia
O Medo é nosso amigo
A Ansiedade é má companhia

estimulado pelo texto Murar o Medo de Mia Couto
 

Crianca negra com medo.jpg

 

A ansiedade é o tema mais frequente em nossas sessões de psicoterapia.

 

A maneira utilizada para abordar o Transtorno de Ansiedade é considerá-lo um derivado desfuncional do medo.

 

Em termos psicológicos, em especial nas abordagens psicoterapêuticas corporais, o medo é a emoção que zela pela nossa sobrevivência. É ele que nos faz dirigir a atenção para o perigo percebido pelo sistema sensorial e nos coloca em estado de alertaO medo é a emoção que provoca o movimento de luta ou fuga, escolha que depende do perigo a enfrentar. 

 

De forma semelhante, Ansiedade é um transtorno que também nos coloca em estado de alerta, entretanto não é o sistema sensorial que percebe o perigo, mas sim a mente. Quando estimulada por memórias traumáticas, a mente nos faz imaginar uma possível situação de perigo, da qual temos que fugir. Estes perigos imaginados são assustadores, assemelham-se ao ataque de predadores que devoram sem piedade.

 

Os perigos causadores da ansiedade parecem não nos deixar nem mesmo a alternativa da esquiva. E como seria se pudéssemos nos esquivar de uma ideia que habita persistentemente nosso mundo mental?

 

Participei neste mês de setembro/2021 de uma oficina sobre Traumas, onde o tema da insegurança foi discutido. A frase “Sentir-se seguro não é estar em um ambiente livre de perigos, mas sim acreditar que se pode enfrentar as ameaças conhecidas, imaginadas e surpreendentes.” , foi debatida. Diferentemente do que muitos nos ensinaram, fugir ou esquivar-se de ambientes ou situações perigosas são reações inteligentes e não covardes.

 

Murar o Medo

 

Recortes do discurso proferido por Mia Couto na Conferência de Estoril, em 2011.

 

Embora o termo ansiedade não apareça no texto, o discurso também trata do Transtorno de Ansiedade. 

 

“ ... O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem.

 

... Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos.

 

... Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura e do meu território. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte, vislumbravam-se mais muros do que estradas.

 

... Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas, precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais, precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania.

 

... Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

 

... O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade, imprevisível.

 

... Vivemos como cidadãos, e como espécie, em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

 

... Citarei Eduardo Galiano acerca disto, que é o medo global, e dizer: “Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras.”

 

E, se calhar, acrescento agora eu: há quem tenha medo que o medo acabe. “

 

 

Ilusões Necessárias
 

Recortes do texto de Daniel Martins de Barros, professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP

 

 

 “... A ilusão de controle é um viés cognitivo muito bem estabelecido, que nos leva a superestimar nossa capacidade de influenciar resultados que na verdade dependem pouco de nossas ações.

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... Essa sensação de controle não é de todo ruim, no entanto. Primeiramente porque não é sempre uma ilusão. Há coisas cujos resultados podemos obviamente influenciar, e sabemos por experiência que colocar mais ou menos esforço, empenho, muda o desfecho daquela situação.

 

... a notícia que me provocou todas essas reflexões. ... foi o lançamento da missão Inspiration4, da empresa de exploração espacial Spacex ... O foguete não tem piloto, é totalmente controlado da Terra. Agora imagine entrar numa cabine e ser levado para o espaço, colocado em órbita e ser trazido de volta três dias depois sem nenhuma possibilidade de interferir com o funcionamento da nave. Parece-me aflitivo.

 

... Entusiasta da tecnologia que sou ... sonho um dia desfrutar de uma viagem dessas quando elas se tornarem uma alternativa às férias na Disney. Talvez não esteja vivo quando isso acontecer, mas por via das dúvidas vou aproveitando os elevadores sem botão para domesticar minha renitente ilusão de controle. “


Sentir-se seguro não é estar em um ambiente livre de perigos.

 

Sentir-se seguro é acreditar que se pode enfrentar as ameaças conhecidas, imaginadas e surpreendentes.

 


E nas sessões de psicoterapia ...

... analisamos os perigos do ambiente e da situação em que o paciente vive. São fatores relevantes para a nossa saúde e também um dos fatores determinantes 

(ou influenciadores) da nossa personalidade.
 

Quando nos damos conta de que o ambiente é perigoso e/ou tóxico, estimulo o paciente a refletir sobre sua capacidade de lidar com os danos que tais ambientes podem causar. 

 

Continuar num  ambiente perigoso ou tóxico é mesmo uma boa escolha?

É possível se manter intoxicado e ter uma boa saúde?

Qual é a sensação - mensagem do corpo´- quando estamos em um ambiente saudável, livre de toxinas?

 

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Referências aos links dos textos citados

Estado de Alerta

As reações do corpo em situações de risco, 

texto de Thais Sabomp,  publicado no site Vida e Estilo (Saúde) em 30/9/2021

 

Murar o Medo

discurso proferido por Mia Couto, na Conferência de Estoril, em 2011

 

Ilusões Necessárias

texto de Daniel Martins de Barros do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP - publicado no Jornal O Estado de São Paulo,  Primeira Página em 20/9/2021

 

 


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