Agosto/2024  Psicologia/Apreensão

 

“Minha Caverna Gostosa”

 

“Há um mundo real concreto, mas meu modo de apreendê-lo depende de questões subjetivas”

 

Percepção e Apreensão - Consumismo e Egocentrismo

 

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A caverna nos traz Platão. O texto compartilhado é do Karmal. Apreender é diferente de aprender. A realidade percebida por cada um é singular e um tanto diferente dos fatos. E por aí vai ... vai para onde?

 

O artigo de Karmal, Minha Caverna Gostosa, aborda temas frequentes nas sessões de psicoterapia. Ele dá forma ao texto em que eu vinha trabalhando: a importância da percepção e apreensão na construção da personalidade. É a personalidade que define o modo de lidarmos com o que a vida nos apresenta.

 

Este informe traz recortes e comentários sobre o artigo do Karmal. Discutimos brevemente o que influencia a percepção e apreensão neste momento de consumismo, egocentrismo, uso de redes sociais e Inteligência Artificial. Trazemos também algumas das pontuações que fazemos em nossas sessões de psicoterapia.

 

 

Minha Caverna Gostosa

Leandro Karmal

 

(Recortes e edições do texto original, publicado no Jornal O Estado de São Paulo, em 12/8/2024, adaptados ao propósito de nossos informes)

 

Há um mundo real concreto, mas meu modo de apreendê-lo depende de questões subjetivas.

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Um cachorro late. Meu ouvido brasileiro ouve “au-au”. Um amigo dos Estados Unidos diz que escuta “woof-woof”; outro do mesmo país afirma ser “bow-wow”. O coaxar dos sapos à noite soa como “croc-croc”. Em pântanos da América do Norte, dizem que o som é “ribbit-ribbit”. O grilo que emite seu “cri-cri”, no Ibirapuera, canta “chirp-chirp” no Central Park, em Nova York. Disseram-me que o galo, na China, faz “kiau-kiau”. Será verdade? A ave matinal dominaria o mandarim? O mesmo animal muda o som ao cruzar a fronteira? Onomatopeias são nacionalistas?

 

Os órgãos dos sentidos – como visão, paladar e audição – fluem a partir de treinos e de questões socioambientais. Não se trata apenas de quem ouve melhor, mas como ouve em relação a outras pessoas. Existe o real externo, entretanto o que eu percebo é um diálogo complexo entre este mundo [externo] e sua apreensão/percepção no meu corpo/consciência. ...

Isso envolve gradação (ouvir/ver mais ou menos), emoção (assustar-se com algo percebido ou não) e uma questão cognitiva desafiadora: o diálogo dos sinais externos em dança permanente e mutável.

 

Platão discutiu tema similar no diálogo Teeteto. A personagem Sócrates argumenta se o conhecimento seria percepção; julgamento/opinião ou explicação racional. O que me fascina no Teeteto é trazer o problema do choque entre verdade absoluta e relativismo. ...

 

Posso ir às profundezas platônicas ou escutar a parente do interior: “Quem ama o feio bonito lhe parece”. ...

 

Graciliano Ramos, ... mudou um pouco as aves e ampliou a percepção da subjetividade encerrada na consciência de cada um: “Tu és sempre a coruja, e os outros homens são gaviões”. A comadre coruja e o compadre gavião, na visão do alagoano, são as eternas relações do Eu com o Outro. Nunca veremos com o olhar alheio, ...

 

Claro que há reações contra a subjetividade. Platão falou que haveria um Sol fora da caverna dos enganos. ...

 

Encerro com uma nota na direção oposta.

 

A ascensão da inteligência artificial (IA) está possibilitando, cada vez mais, que os algoritmos respeitem (e formem) meus gostos individuais.

 

As propagandas e publicações que chegam ao meu celular valorizam meu universo, meu eu, minhas barreiras de encontrar algo fora de mim.

 

Suprema liberdade pela frente
ou decisiva escravidão?

Meu filme para mim 1.jpg
prato para o meu gosto 1.jpg
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Nossa sociedade foi marcada por imensas ilusões coletivas. O termo ideologia, em Marx, remetia àquilo que velasse relações de dominação, ... Daqui a pouco tempo, a Inteligência Artificial poderá criar paraísos cristãos, lutas socialistas, verdades islâmicas ou perfeições veganas em nível inédito. ...

 

Estamos sendo trazidos (ou já chegamos) a uma Matrix inédita.

 

Não é a máquina que nos destrói agora, mas nossa própria liberdade subjetiva de um novo tipo de desejo individual que deve ser respeitado.

 

Esperança? Também estará disponível pela Inteligência Artificial na caverna gostosa de cada um.

O Mito da Caverna

 

(resumo extraído do texto de Benício Filho)

A Caverna de Platão.jpg

“ De acordo com a história formulada por Platão, existia um grupo de pessoas que viviam numa grande caverna, com seus braços, pernas e pescoços presos por correntes, forçando-os a fixarem-se unicamente para a parede que ficava no fundo da caverna. Atrás dessas pessoas existia uma fogueira e outros indivíduos que transportavam ao redor da luz do fogo imagens de objetos e seres, que tinham as suas sombras projetadas na parede da caverna onde os prisioneiros ficavam observando.

 

Como estavam presos, os prisioneiros podiam enxergar apenas as sombras das imagens julgando serem aquelas projeções a realidade. Certa vez, uma das pessoas presas nesta caverna conseguiu se libertar das correntes e saiu para o mundo exterior. A princípio, a luz do sol e a diversidade de cores e formas assustou o ex-prisioneiro, fazendo-o querer voltar para a caverna. No entanto, com o tempo ele acabou por se admirar com as inúmeras novidades e descobertas que fez.

 

Assim, quis voltar para a caverna e compartilhar com os outros prisioneiros todas as informações e experiências que existiam no mundo exterior. As pessoas que estavam na caverna, porém não acreditaram naquilo que o ex-prisioneiro contava chamaram-no de louco. Para evitar que as suas ideias atraíssem outras pessoas para os “perigos da insanidade” os prisioneiros mataram o fugitivo. “

 

 

Um pouco sobre Percepção e Apreensão

Gatinho vê Leão no espelho.jpg

Percepção é o processo de associar uma ideia ou conceito aos estímulos capturados pelo nosso Sistema Sensorial. Por exemplo, quando sentimos um cheiro qualquer, esta sensação olfativa é encaminhada à mente, que busca em nossa memória um cheiro “igual” ou semelhante, para comparar a experiência atual às que já vivenciamos no passado. A memória trazida se junta à sensação atual. A mente processa este conjunto e cria uma ideia ou conceito atualizado e comanda a reação adequada ao cheiro sentido. Esta descrição é simplista, pois não considera o estado de humor da pessoa e nem os outros estímulos concorrentes que estão ocupando a mente.

 

Mais uma vez de forma simplista, a Apreensão cria o significado que damos ao que foi vivenciado. Ela atualiza o modo de lidar com o estímulo (o cheiro), levando em conta o que trouxe de novidade, acrescentando, subtraindo e/ou modificando o conceito que utilizávamos antes deste particular estímulo: um upgrade. Assim, evoluímos a partir de cada estimulo percebido e da consequente apreensão que ele gerou.

 

Vale acrescentar que não somos capazes de capturar todos os estímulos que nos afetam. O que percebemos do ambiente externo e interno é escolhido de acordo com a importância e prioridade que o momento exige. E a prioridade número um é a sobrevivência. Perceber um perigo precede a percepção de uma oportunidade de prazer.                                                     

Percepção e Apreensão sob influência do consumismo, do uso de redes sociais e da Inteligência Artificial e ...

 

Karmal nos ajuda a compreender a influência do consumismo, do uso das redes sociais e da inteligência artificial.

 

A Internet é composta por todos os computadores interligados via telecomunicação. Nos permite acessar - em qualquer hora e de qualquer lugar - toda e qualquer informação digital disponível nestes computadores.

 

Serviços e Produtos de qualquer origem e país podem ser adquiridos a partir dos smart phones e de uma infinidade de aplicativos que foram desenvolvidos para facilitar a sua  comercialização. Assim os sistemas de Comércio Eletrônico  integram o Sistema Financeiro, a Logística de Distribuição e Entrega e o Marketing Digital. Tudo isso, de maneira muito fácil de usar - bastam alguns toques na telinha.

 

Dá muito trabalho selecionar a informação e os produtos desejados. Para facilitar ainda mais o consumo, foram criadas as Máquinas de Busca, que são sistemas que oferecem uma lista de alternativas a partir de palavras-chave.  

 

O número de alternativas é enorme. O Marketing Digital fez do conteúdo digital global um hipermercado e os buscadores transformaram a lista de alternativas resultante de uma busca em um catálogo de produtos e serviços. Na lista está - com certeza ??? - tudo o que se quer. 

 

A partir de tecnologias capazes de processar volumes enormes de informação – Big Data – quando acessamos os registros digitais via internet, os dados acessados e os dados de quem os acessou são capturados e se transformam em bancos de dados muito úteis às empresas que desenvolvem e comercializam produtos e serviços. De forma globalizada, ativa e imperativa, estas empresas sugerem o que devemos consumir. Há muitas outras utilidades para estes bancos de dados, mas não tratamos delas neste informe.

 

Um aspecto relevante do uso do Marketing Digital, baseado em informações obtidas pela atividade dos internautas, é  que os produtos e serviços parecem atender às nossas necessidades e desejos. Há quem diga que, “finalmente os fornecedores levam em conta o que os consumidores  esperam deles”. Seria isso mesmo?

 

O CNC (Capitalismo-Neoliberalismo-Consumismo) estimula o consumo para aumentar sua lucratividade dos detentores da capacidade global de produção automatizada e tenta nos fazer pensar que age em nosso benefício. Sem a adequada apreensão, podemos concluir que "agora sim" temos como realizar o nosso desejo de consumo. 

 

 

... e a influência do Egocentrismo

 

Segundo André Rabelo, "O egocentrismo compreende perceber a si mesmo como ponto de referência mais importante para várias coisas. É como se a vida da pessoa fosse mais relevante que a dos outros ou devesse ser priorizada, até mesmo pelos outros." 

 

E como nos diz Karmal, em breve poderemos contar com “o poder sedutor de ver um [MEU] filme feito exclusivamente, a partir daquilo que navego ou comento.”

 

Conversando sobre este tema, Baby me lembrou que “o mundo criado para nosso eu – ego – é uma ilusão, pois sem o outro não existimos”.

 

 

E nas sessões de psicoterapia ...

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Fruto da convergência digital, apreendemos a partir dos registros digitais - disponíveis em qualquer lugar e em qualquer momento – e não a partir da experiência de sentir por nós mesmos.  Com isso, estamos cada vez mais desconectados da natureza. 

 

O Sistema Sensorial (corpo que sente) captura tudo que nos afeta. A abordagem psicorporal propõe que estejamos muito mais atentos ao corpo, nossa própria natureza.

 

Sentir o sol, a chuva, o chão de terra, a areia molhada da praia, o gramado, o vento no rosto, o perfume da flor, o gosto da fruta, o abraço amigo, o toque carinhoso, e tudo que nos agrada e nos desagrada é o que nos faz seres humanos sensíveis.

 

Apreender sem sentir

 

Seria este o melhor caminho para nossa evolução?

 

 

Referência bibliográfica:

 

Minha Caverna Gostosa, Leandro Karmal
Transcrição do Artigo publicado no domingo, 12 de agosto de 2024, no Jornal O Estado de São Paulo

 

Como as Redes Sociais mais usadas podem levar você a reviver o Mito da Caverna de Platão

Transcrição do artigo de Benício Filho, publicado em seu site - acessado em 20 de agosto de 2024

 

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