Outubro/2022: Psicologia
Cuidar e Freud
Teoria do Desenvolvimento Humano
Este informe traz um recorte da Teoria do Desenvolvimento Psicossexual de Sigmund Freud. Dá seguimento ao falar do Desenvolvimento Humano, depois dos informe sobre “Cuidar e Wallon” e “Cuidar e Piaget”.
Completa os três informes que procuram estimular os cuidadores a compreender os estágios ou fases de desenvolvimento do indivíduo, em especial das fases iniciais até a adolescência.
Mais uma vez, a intenção é estimular os adultos cuidadores das crianças e adolescentes a refletirem sobre a maneira como desempenham suas funções.
São inúmeros os desafios trazidos pelos pacientes cuidadores, em especial mães e pais de bebês, crianças e adolescente.
A variada combinação de relações conjugais, a terceirização dos cuidados às crianças, o uso precoce de jogos eletrônicos e redes sociais nas fases iniciais do desenvolvimento e psicológico e os estímulos para o consumo desenfreado, podem gerar ansiedade e culpa a quem se dedica ao cuidar-acolher-prover-proteger.
Com o objetivo de colaborar para que sejam “cuidadores suficientemente bons”, trazemos um recorte da Teoria Psicanalítica freudiana: a Teoria do Desenvolvimento Psicossexual.
Sigmund Freud nasceu em Freiberg, Morávia, em 1856. Formou-se em Medicina na Universidade de Viena em 1881, onde teve contato com os grandes cientistas e pensadores da época e participou dos cursos de Filosofia, que deram importante base humanística à construção da Psicanálise. Dedicou-se à psiquiatria, tendo concluído na época que os conhecimentos existentes não eram significativos. Foi também um neurologista renomado nas décadas de 1880 e 1890.
O interesse particular de Freud pela histeria levou-o a trabalhar com Charcot em Paris e com Breuer em Viena. Ambos desenvolveram tratamentos de histeria com base na hipnose. O trabalho de Breuer no tratamento de Ana O. foi o primeiro caso clínico a ser tratado dentro do método que daria origem à Psicanálise. Este método de eliminar sintomas com a retomada de recordações traumáticas, conhecido como Método Catártico, foi definido pela própria paciente como “a cura pela fala”.
Um dos marcos que o Século XX deixou para a posteridade é a Psicanálise.
Atualmente é (mais) fácil aceitar a ideia da existência de processos inconscientes. Em sua época, o próprio Freud reconheceu como uma atitude natural rejeitar a ideia de que somos dominados por processos que desconhecemos. A descoberta do inconsciente tira do ser humano o domínio sobre sua própria vontade.
As Fases do Desenvolvimento Pisicossexual
Fase Oral: primeiro ano de vida
Fase Anal: segundo e terceiro anos
Fase Fálica: terceiro ao quinto ano
Período de Latência: sexto ao décimo ano
Fase Genital: décimo primeiro ano em diante
A tendência natural é um desenvolvimento sucessivo das fases.
Porém, se ao tentar se ligar ao objeto do desejo, ocorrer uma relação de temor ou de destruição, aparecerá a Angústia.
A Angústia indica a não realização do desejo, o que pode criar um Ponto de Fixação, ou seja, um ponto no processo de desenvolvimento onde paramos por não podermos satisfazer o desejo,
e onde também paramos porque deixamos neste ponto muita energia imobilizada.
Conceitos Básicos da Psicanálise
relacionados às Fases do Desenvolvimento Psicossexual
Pulsão, Libido, Angústia, Fixação, Regressão, Defesa e Neurose são os principais conceitos básicos da Psicanálise que Freud considerou para definir as Fases do Desenvolvimento Psicossexual do sujeito.
Pulsão se refere a uma fonte original de energia afetiva, que mobiliza o organismo na perseguição dos seus objetivos. Note-se que Pulsão, assim como o instinto, tem origem no corpo e não na mente.
Libido é o termo que designa a energia afetiva. A libido é a energia afetiva que sofrerá progressivas organizações durante o processo de desenvolvimento. Cada nova organização da libido está apoiada numa zona erógena corporal, caracterizando uma Fase do Desenvolvimento, que gera uma fantasia básica e uma forma de relação com o objeto do desejo. A Libido é uma energia voltada para a obtenção do prazer, a realização do desejo. É neste sentido que a Psicanálise a define como uma energia sexual, num sentido amplo, não apenas genital. Daí também decorre o termo “etapa psicossexual” para o desenvolvimento.
A Libido caracterizará três fases do desenvolvimento infantil: a Fase Oral, a Fase Anal e a Fase Fálica; um período intermediário sem novas organizações, o período de Latência, e uma fase final de organização adulta, a Fase Genital.
A tendência natural é um desenvolvimento sucessivo das fases. Porém, se ao tentar se ligar ao objeto do desejo, ocorrer uma relação de temor ou de destruição, aparecerá a Angústia. A Angústia indica a não realização do desejo, o que pode criar um Ponto de Fixação, que é um ponto do processo de desenvolvimento onde paramos por não podermos satisfazer o desejo, e onde também paramos porque deixamos neste ponto muita energia imobilizada. Quando isto ocorre, o Ego se torna frágil frente à Angústia e, se a Angústia for muito forte, regredirá para este ponto de fixação, quando ocorrerem situações associadas ao objeto desejado. A Regressão será dupla: regressão para uma fantasia infantil (desejo que não foi satisfeito) e regressão formal, que fará com que o indivíduo passe a se relacionar com o mundo através de Mecanismos de Defesa, ao invés de investir a Libido na obtenção do prazer por meio da realização do desejo.
A neurose foi definida por Freud como um Infatilismo Psíquico. O neurótico repete sempre o modelo infantil no qual foi fixado e para o qual regrediu depois de um evento traumático. O trauma pode ser definido como o terror vivenciado quando o sujeito busca a realização do desejo ou quando se dá conta de que o objeto do desejo foi destruído.
E nas sessões de psicoterapia ...
Sobre o cuidar
A Teoria de Desenvolvimento de Freud também nos ajuda Cuidar Bem em cada Encontro.
Colaborar para o saudável desenvolvimento psicossexual é colaborar para que a criança chegue à Fase Fálica menos neurótica, e tenha potencial para a realização plena em sua vida sexual. É o que um cuidador suficientemente bom pode fazer: colaborar para que a criança possa ter a plena capacidade de amar.
"A capacidade orgástica plena e o prazer oriundo da capacidade orgástica será componente fundamental de sua capacidade de amar."
Queremos ressaltar um tema muito frequente nas sessões de psicoterapia: a Angústia das crianças. A prática clínica nos sugere o despreparo dos cuidadores em lidar com este tema.
Considerando que a Angústia indica a ocorrência de uma relação de temor ou de destruição quando da tentativa de ligação com o seu objeto de desejo, o cuidador deveria encorajar e ajudar a criança a construir uma relação prazerosa com tal objeto. Porém, se na concepção do cuidador a tradição, as regras morais e a sua neurose apontam em direção contrária ao que quer a criança, é frequente notar que os cuidadores não dão legitimidade, reprimem ou ignoram o desejo natural da criança.
Nas sessões de psicoterapia, levamos em conta que esta atitude do cuidador é inconsciente, é uma defesa do cuidador em relação à sua própria Angústia.
Costumo dizer aos pacientes cuidadores, em especial às mães e aos pais, que “tirem o olho do próprio umbigo e olhem para a criança”. Agindo assim perceberão do que os seus filhos precisam e os educarão com mais empatia e mais compaixão.
Sugestão de leitura
Tempos sem Elegância de Claudia Zogheib
Ouso dizer que é impossível Cuidar Suficientemente Bem sem a Elegância de que nos fala Zogheib.
Fases do Desenvolvimento Psicossexual
Teoria do Desenvolvimento Humano
Recortes editados do livro:
Psicologia do Desenvolvimento -
Teorias do Desenvolvimento - Conceitos Fundamentais
Fase Oral – primeiro ano
Ao nascer, a estrutura sensorial mais desenvolvida é a boca. É pela boca que o bebê começará a provar e a conhecer o mundo. É pela boca que fará sua primeira e mais importante descoberta afetiva: o seio. O seio é o primeiro objeto de ligação e do desejo infantil. É o depositário de seus primeiros amores e ódios. Neste momento a libido está organizada em torno da zona erógena oral.
Ao incorporar o leite e o seio, a criança sente ter a mãe dentro de si. Tudo o que a criança pega é levado à boca. É comendo que ela conhece o mundo e que as identificações podem ser estabelecidas.
A incorporação é a etapa concreta da introjeção e a organização primitiva da identificação.
A Fase oral é composta de duas etapas do desenvolvimento: a primeira precede à dentição e é chamada de etapa Oral de Sucção, onde a modalidade de relação é incorporativa (introjetiva) e visa a apreensão do mundo em si mesma. A segunda etapa, que surge com a eclosão dos dentes, é denominada etapa Oral Sádico-Canibal. Nesta etapa os dentes surgem para a criança como a primeira concretização de sua capacidade destrutiva.
É necessário que a agressividade se manifeste, porque dela derivará a futura combatividade social. Ao mesmo tempo, a criança é posta pela primeira vez em uma posição ambivalente. De um lado ama, e amar significa a incorporação oral. De outro, mastigar e comer atualiza fantasias destrutivas. Se o desenvolvimento afetivo for normal, o amor será estabelecido como o sentimento básico.
Fase Anal – segundo e terceiro anos
No início do segundo ano a Libido inicia nova organização. A erotização passa a ser dirigida ao ânus.
É o período em que se inicia o andar, o falar e em que se estabelece o controle dos esfíncteres.
Dois processos básicos estão se organizando na evolução psicológica. O primeiro diz respeito às fantasias que a criança elabora sobre os primeiros produtos realmente seus que ela coloca no mundo. O segundo diz respeito ao modelo de relação a ser estabelecido com o mundo através dos produtos dela.
A criança aprende que tem coisas suas, que ela produz e que pode ofertar ou negar estas coisas ao mundo. Por exemplo, só anda quando está bem, se chega um estranho, volta a engatinhar em busca da mãe. Fala, mas só quando se sente aceita. Quando assustada, emudece, negando seu produto “fala” ao ambiente que a rejeita ou a ataca.
As fezes assumem um lugar central na fantasia infantil. São objetos que vêm de dentro do próprio corpo, que são partes da própria criança. São objetos que geram prazer ao serem produzidos. Durante o treino de esfíncteres, as fezes são dadas aos pais como prendas ou recompensas.
Quando o desenvolvimento é normal, a criança ama e sente que é amada pelos pais. Cada elemento que a criança produz é sentido como bom e valorizado.
O sentimento de que nossos produtos são bons é necessário para todas as relações produtivas que estabelecemos com o mundo. A criança só desenvolverá uma boa capacidade de criação se tiver um sentimento interior de que seus produtos são bons.
A fase anal está dividida em duas etapas. A etapa inicial é caracterizada biologicamente pelo domínio dos processos expulsivos, sobre os quais se assentará o mecanismo psicológico da projeção. A segunda etapa é retentiva, o que propiciará a base para os mecanismos psicológicos ligados ao controle.
Pode ocorrer que as relações de angústia predominem sobre as relações de amor. Por exemplo, tomemos uma mãe que entra em pânico toda vez em que a criança suja as fraldas ou que obriga a criança ao silêncio por não suportar o barulho. Tal comportamento materno faz a criança ter fantasias de que seus produtos são maus e destrutivos.
É uma defesa usual expelir tudo que há em nós e que sentimos que é mau. Atiramos então nossos produtos destrutivos no mundo e, como depositário de nossas agressões, o mundo se torna mau e destrutivo.
Fase Fálica – terceiro ao quinto ano
Por volta dos 3 anos a libido inicia nova organização. A erotização passa a ser dirigida aos genitais. Desenvolve-se o interesse infantil por eles. A masturbação torna-se frequente e normal. As diferenças sexuais entre meninos e meninas passam a influenciar até a percepção dos objetos. “O ônibus tem pipi? Se não tem é mulher.”
A erotização masculina recairá normalmente sobre o pênis, enquanto a feminina se manifestará no clitóris.
Os genitais erotizados dirigem uma busca de satisfação de desejos sexuais. Nunca devemos nos esquecer de que estamos nos referindo à organização da fantasia infantil. A procura do parceiro para satisfação sexual real é uma tarefa do adulto, é um trabalho da fase genital.
A psicanálise vê a erotização dentro de um modelo homeostático, ou seja, há um acúmulo de tensão que deve ser descarregado. A descarga promove a sensação de prazer.
A maior parte dos vínculos de prazer da infância está ligada à mãe. Na fantasia infantil é natural que a criança considere a mãe como seu objeto de atração sexual. A figura da mãe preenche este papel. Esta relação servirá de suporte para que, quando adulta, a criança possa buscar um(a) parceiro(a) sexual externo(a) à família, com quem estabelecerá vínculos afetivos importantes e constituirá sua própria família. É aprendendo a amar em casa que a criança se tornará uma pessoa adulta capaz de amar fora do ambiente familiar.
Se aprender a amar é uma relação positiva, o amor incestuoso é uma relação proibida. O tabu do incesto é a lei essencial da organização humana. Sem o tabu do incesto a civilização não seria possível.
As fantasias infantis de se casar com a mãe (com o pai), de tê-la(o) como namorada(o), expressões usuais de crianças nesta fase, ficam vedadas pelo pai(mãe). Fica então configurado o triângulo que Freud denomina Complexo de Édipo, numa referência ao drama Édipo Rei, de Sófocles.
O Complexo de Édipo é ponto central da organização afetiva dentro do modelo psicanalítico.
Período de Latência – sexto ao décimo ano
Com a repressão do Édipo, também chamada de castração, a energia da libido fica temporariamente deslocada dos seus objetos sexuais. Estando os fins eróticos vedados, eles são canalizados para o desenvolvimento intelectual e social da criança. Chamamos este processo de realizações socialmente produtivas de sublimação.
O período de Latência não é uma fase, pois não há nova organização de zona erógena, não há nova organização de fantasias básicas e nem modalidades de relações com objetos de desejo. É um período intermediário entre a genitalidade infantil (fase fálica) e a genitalidade adulta (fase genital). A sexualidade permanece reprimida durante este período e aguarda a eclosão da puberdade para ressurgir.
Fase Genital – 11 anos em diante
Quando perguntado em sua velhice sobre como definiria o homem adulto normal, Freud respondeu apenas que o homem normal é aquele que é capaz de “amar e trabalhar”. Alcançar a fase genital é atingir o pleno desenvolvimento do adulto normal.
As adaptações biológicas e psicológicas foram realizadas. O adulto normal aprendeu a amar e a competir; discriminou seu papel sexual; desenvolveu-se intelectual e socialmente. É chegada a hora das realizações.
A capacidade orgástica plena e o prazer oriundo da capacidade orgástica será componente fundamental de sua capacidade de amar.
A perturbação na capacidade orgástica é a tônica dos neuróticos.
A contribuição de Wilhelm Reich
Não me parece um exagero dizer que Reich foi o principal colaborador de Freud no que tange à sua Teoria da Sexualidade.
Em 1926, Reich dedicou a Freud (em homenagem aos seus 70 anos) seu primeiro extenso trabalho sobre A Função do Orgasmo.
Seguem algumas frases que constam do seu livro A Função do Orgasmo, publicado também no Brasil:
“As enfermidades psíquicas são o resultado de uma perturbação da capacidade natural de amar”.
“É simples e parece até vulgar, mas eu sustento que toda pessoa que tenha conseguido conservar alguma naturalidade sabe disto: os que são psiquicamente enfermos precisam de uma só coisa — completa e repetida satisfação genital.”
“A neurose não é mais que a soma total de todas as inibições cronicamente automáticas de excitação sexual natural.”
Sobre a Potência Orgástica, seria “a capacidade de abandonar-se, livre de quaisquer inibições, ao fluxo de energia biológica; a capacidade de descarregar completamente a excitação sexual reprimida, por meio de involuntárias e agradáveis convulsões do corpo”.
Referência bibliográfica:
Psicologia do Desenvolvimento - Volume 1 - Teorias do Desenvolvimento - Conceitos Fundamentais;
Clara Regina Rappaport, Wagner da Rocha Fiori, Cláudia Davis; São Paulo: EPU, 1981
A função do Orgasmo: problemas econômico-sexuais da energia biológica
Wilhelm Reich; tradução Maria da Glória Novak. – São Paulo: Brasiliênse, 2012
Vocabulário de psicanálise / Laplanche e Pontalis
sob direção de Daniel Lagache ; tradução Pedro Tamen. – 4ª. ed. – São Paulo : Martins Fontes, 2001
Outros Informes: Psicologia Assessoria de Desempenho Consultoria Empresarial Idéias Inspiradoras
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