Fevereiro/2025  Psicologia/Percepção

 

Percepção e Inteligência Artificial

 

“Mundo dos Fatos,

Mundo da Realidade
e Mundo Digital-Virtual

 

Alinhado com o post de Cezar Taurion

 

Capa - senhora com óculos de realidade virtual.png

A Inteligência Artificial tem participado muito de nossas sessões de psicoterapia. Há algum tempo tenho refletido sobre a sua utilização e consequências sociais, ambientais e psicológicas, em especial, o aumento crescente da  substituição do trabalho humano pelo uso de automação e sistemas informação.

 

Um colega do período em que eu trabalhava em projetos de infra-estrutura para sistemas de informação e de telecomunicações, compartilhou comigo um post do Cezar Taurion. Seu post está alinhado com as ideias que apresento aos meus pacientes e a outras pessoas interessadas nesse tema.

 

Na década de 1980, Taurion era Diretor de Novas Tecnologias Aplicadas e Evangelista Chefe da IBM Brasil. Seu título de “Evangelista” já me chamava a atenção: seriam mesmo boas notícias? Participei de muitas das suas palestras, o que me mantinha atualizado sobre as perspectivas da vida futura, com o uso das tecnologias que estavam em laboratório e poderiam mudar o modo de vida das pessoas. Suas palestras eram subsídios relevantes e estimulantes para o meu trabalho e para as reflexões sobre minha contribuição social como profissional.

 

Aquele foi o período em que se iniciou uma discussão sobre Tecnologia da informação: seria uma atividade fim ou uma atividade meio? Predominava a ideia – não necessariamente a prática - de que era uma atividade meio, a serviço do bem-estar social. Já se notava também um desvio de finalidade: o desenvolvimento da tecnologia de informação era subsidiado pelas pessoas, empresas e governos, que visavam obter mais lucro em seus negócios, mesmo que isso representasse um enorme declínio do número de postos de trabalho, causando um aumento do nível de desemprego e desigualdade social.

 

Em seu post, Taurion se posiciona como um tecno-ceticista, e faz um contra-ponto aos tecno-otimistas, estimulando a reflexão e a discussão sobre o fato de que as tecnologias são acessadas e usufruídas de maneira desigual, ampliando lacunas sociais em vez de reduzi-las.


 

O post do Cezar Taurion

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Saí de vários grupos de Whats que debatem IA – Inteligência Artificial. Não que sejam ruins, pelo contrário, são grupos formados por gente tecnicamente muito boa. Mas, sentia falta de uma discussão mais ampla sobre os impactos da IA na sociedade.

 

Senti que a imensa maioria poderia ser considerada como tecno-otimistas, que acreditam fortemente que a tecnologia, por si só, é capaz de resolver os principais problemas da humanidade, como a pobreza, as mudanças climáticas e as desigualdades sociais. Para eles, a inovação tecnológica é um motor inevitável de progresso, capaz de criar um futuro melhor de maneira quase automática. 

 

Essa visão celebra os avanços tecnológicos como algo intrinsecamente positivo, muitas vezes sem considerar adequadamente os riscos ou impactos negativos.

 

Esse viés ficava claro, por exemplo, nos infindáveis debates sobre se um modelo era melhor que outro, sem nenhuma discussão sobre a real utilidade dele para a sociedade e seus eventuais impactos em empregos. Via exaltação às ferramentas de IA que acabariam com funções como desenvolvedores, advogados e médicos. E, satisfação com a possibilidade de um futuro sistema de agentes operar uma empresa com 10% das pessoas. Mas se outras empresas fizessem a mesma coisa e para quem elas venderiam seus produtos? Como a economia vai girar?

 

Os tecno-otimistas tendem a assumir que a tecnologia é neutra, ou seja, que seu impacto depende apenas de como as pessoas a utilizam. Mas subestimam a influência dos interesses políticos, econômicos e sociais. E que as tecnologias são acessadas e usufruídas de maneira desigual, ampliando lacunas sociais em vez de reduzi-las.

 

Assim, como me posiciono como tecno-ceticista, me sentia meio deslocado. Prefiro abordar a tecnologia de forma crítica, questionando tanto seus benefícios quanto os impactos negativos na sociedade.

 

Sei que, embora a tecnologia tenha potencial para resolver problemas, ela também pode criar ou agravar desigualdades, gerar impactos ambientais e ameaçar valores humanos fundamentais, como privacidade, autonomia e justiça.

 

Não rejeito a tecnologia, mas acredito que seu desenvolvimento e uso devem ser analisados em termos de consequências sociais, éticas e ambientais.

 

Também enfatizo os perigos da dependência excessiva de tecnologias, e seus efeitos como a perda de empregos, o aumento da vigilância em massa e os impactos climáticos de novas indústrias. Também rejeito a ideia de que o progresso tecnológico é inevitável e intrinsecamente benéfico, mas considero que ele reflete decisões políticas, econômicas e culturais, e que deve ser guiado por princípios éticos e acompanhado de regulamentações adequadas que protejam os interesses coletivos.

 

Entendo que a IA não é a solução universal para os problemas globais, e questiono a sua aplicabilidade impensada, pelo simples fato de que seja “cool”.

 

Em resumo, procuro equilibrar o entusiasmo pela inovação com uma reflexão crítica sobre suas consequências.”

 

Percepção e Inteligência Artificial
Efeitos no Desenvolvimento Humano

 

Os três temas deste subtítulo já foram abordados em meus informes anteriores. Há inúmeras maneiras de estabelecer um diálogo entre eles. Registro aqui o diálogo que utilizo e expressa o raciocínio clínico que emprego nas sessões de psicoterapia, cuja finalidade é a boa saúde, o bem-estar, como define a Organização Mundial da Saúde.

 

Se pensarmos o Desenvolvimento Humano como um processo que se inicia na concepção e termina com a morte,  ele evolui em etapas associadas à capacidade de lidarmos com tudo que acontece na vida. Proponho entender o humano a partir de três instâncias: corpo, mente e alma (psiquê).

 

Alma é a energia vital, também referida como essência, self, si mesmo, subjetividade, centelha divina. Mente é a instância que nos diferencia de todos os outros organismos vivos, é a capacidade racional de pensar, lembrar, imaginar, compreender, apreender, comunicar e planejar. Corpo é o instrumento que nos permite atuar na vida, em especial, destaco aqui a capacidade corporal de perceber e sentir o que nos afeta e vem do ambiente interno - o próprio corpo - e do ambiente externo - tudo que está ao nosso redor. Por intermédio do sistema sensorial percebemos tudo que nos acontece.

 

A Percepção tem relevância neste informe, pois lidamos com três mundos diferentes: o mundo dos fatos (eventos e fenômenos), o mundo da realidade (nossa própria percepção dos fatos) e o mundo digital-virtual (os incontáveis registros de dados digitalizados e acessíveis via internet, dados estes que são o registro das percepções dos outros sobre os fatos).

 

É mais fácil entender o Desenvolvimento Humano em termos corporais e mentais. Quanto à alma, o psicológico, utilizamos a abordagem psicanalítica, psicocorporal, bioenergética.

 

O ser humano com alto grau de desenvolvimento tem sabedoria, sabe como lidar ética, solidária, assertiva, amorosa e socialmente com as situações diversas que a vida lhe apresenta.

 

A Percepção que temos do ambiente interno (nosso próprio corpo) e externo (lugar em que estamos) é singular, é diferente da percepção de qualquer outra pessoa.

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Compreender como percebemos o mundo é fundamental para entender a dinâmica psicológica. A Percepção que temos de nós mesmos, do mundo e das pessoas influencia a compreensão de tudo e de todos. E também influencia o nosso modo de agir em cada situação

 

Na Psicologia da Percepção, qualquer evento passível de ser captado pelo nosso sistema sensorial é chamado de Estímulo. Nossas ações dependem da maneira como percebemos cada um dos estímulos. É importante citar que as condições físicas e orgânicas do nosso corpo, bem como nosso estado de humor, influenciam a maneira de perceber o que está acontecendo: o lugar, os objetos, as pessoas e a energia que flui entre todos estes elementos, partes de um todo que costumamos chamar de realidade.

 

Além do corpo, da mente e da Alma, a Percepção depende do mundo em que “estamos”, o dos fatos, o da realidade, ou do registro da realidade do outro: digital/virtual.

 

Uma boa saúde está associada à percepção do mundo dos fatos. É a percepção do mundo dos fatos que dá sentido e significado às “coisas” a partir da nossa própria capacidade de captar o estímulo original, de sentir – ser afetado por ele – e de acionar nossa racionalidade para formar a ideia própria que será guardada em nossa memória e comandará nossa (re)ação em todo e qualquer momento da nossa vida.

 

Encantado pelo voo das andorinhas

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Da janela do meu consultório no 16º. andar, percebo como está o dia. Minha mesa de trabalho está posicionada para eu não perder o contato com a natureza: céu azul, sol, calor, nuvens, chuva, a represa, o misto da cidade - casas, edifícios, árvores, avenida, parque, montanhas. Sinto-me grato por trabalhar assim.

 

Em dias ensolarados, recebo a visita das andorinhas. Elas voam num balé fantástico, com rasantes perto da minha janela. Fico encantado com a alegria delas, é contagiante. A gratidão aparece mais forte ainda.

 

No mundo dos fatos, são andorinhas voando num dia de sol. No mundo da realidade que percebo, as andorinhas são mensageiras da sua alegria encantadora que me fazem refletir sobre a beleza e esplendor da natureza. No mundo digital/virtual – como este meu registro – estimulado pelo enorme prazer de ver o voo-criança das andorinhas, posso contar a vocês que me junto a esse bando da alegria. Por alguns segundos, sou uma andorinha, voando livre, alegre e sem qualquer tipo de pré-ocupação, inteiramente no presente, aproveitando o dia ensolarado. Neste mundo virtual, minha imaginação parece ser um fato.

 

Costumo utilizar o voo das andorinhas nas minhas sessões, um exemplo de como podemos imaginar uma realidade diferente e mais prazerosa, onde podemos tudo, inclusive voar com as andorinhas. Desafortunadamente, é só uma fantasia, uma criação mental, consequência da percepção de um fato, que gerou uma fantasia de prazer e alegria.

 

Ter sanidade mental é ter consciência da origem do estímulo que gera nossa percepção. O estímulo é um fato, uma percepção pessoal ou uma fantasia criada a partir da nossa realidade? Ter essa consciência é estar saudável, mesmo que isso gere o desencanto, o desprazer e/ou o sofrimento.

 

Quando a fantasia é uma alucinação – percebida como se fora um fato – dá-se a loucura. Sim, posso me imaginar saltando da janela para me juntar às andorinhas. Porém, se assim o fizer, o fato consequente não seria fazer parte do bando da alegria.

 

 

IA e a crença no Mundo Digital-Virtual

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Quando o Estímulo que nos afeta vem do Mundo Digital-Virtual, sugiro ativarmos nosso Sistema de Alerta, que nos prepara para avaliar e enfrentar um possível perigo. Seria esta uma sugestão exagerada? Ou estaríamos displicentes em relação aos perigos do Mundo Digital-Virtual?

 

Escolhi não descrever os conceitos associados à IA neste informe. Talvez devesse fazê-lo. Apenas cito um conceito básico de sistemas de informação: IA é um programa de computador. Um programa de computador é um conjunto de instruções, ordenado logicamente por alguém, que se utiliza de Dados de Entrada e, com base na lógica programada, gera um Dado de Saída. Qualquer programa (software, aplicativo, ferramenta, IA) depende fundamentalmente dos Dados de Entrada e da Lógica Programada, para gerar um Dado de Saída (resultado). Hoje temos a capacidade de utilizar como Dado de Entrada todos os dados registrados e acessíveis via Internet. De forma simplista, o que diferencia a IA de um outro programa qualquer é a sua capacidade de selecionar dados acessíveis via internet e juntá-los à "pergunta" do seu usuário para compor o seu Dado de Entrada. Depois disso, a lógica programada na IA gera matematicamente o resultado (Dado de Saída).

 

Questões Relevantes:
 

Os Dados de Entrada utilizados pela IA são do Mundo dos Fatos, do Mundo da sua Realidade pessoal, ou do Mundo Digital-Virtual?

 

Os dados utilizados pela IA são originários de fontes confiáveis, manipulados, sem acurácia e/ou são dados falsos?

 

Que ideias e conceitos criamos quando os estímulos que nos afetam são resultados oferecidos pela IA?

 

"Como a IA distorce o senso de realidade da clientela" 

<e das pessoas em geral>

 

Seguem recortes minimamente editados da matéria publicada no Jornal O Estado de São Paulo, em 2 de março de 2025, tradução de fonte não citada, que contou com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial e foi revisada pela equipe editorial.

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“ ...

De lojas de vestido de noiva a clínicas de cirurgia plástica, imagens geradas por inteligência artificial desafiam profissionais e muitas vezes as próprias leis da física.

...

 

Leah Langley-McClean, uma estilista de vestidos de noiva:

 

O vestido desafiava as leis da física, disse Leah à futura noiva. Não havia nada em sua estrutura que impedisse a queda do corpete. A imagem havia sido gerada por inteligência artificial (IA), portanto o design precisaria de alguns ajustes para existir no mundo real.

 

Na era da IA, a linha entre o real e o impossível parece mudar a cada dia. As imagens geradas por IA inundaram a internet e agora estão chegando a salões de cabeleireiro, consultórios de cirurgiões plásticos e outras empresas físicas, onde pessoas como a cliente de Leah pedem aos profissionais que as recriem. Antes das fotos com IA, as pessoas entravam nos salões de cabeleireiro com fotos em revistas de celebridades penteadas ou de influenciadores online com filtros pesados, disseram os estilistas. Os varejistas de produtos para casa e beleza há muito tempo usam o Photoshop e imagens geradas por computador para fazer com que o fantástico pareça real. Mas a fácil acessibilidade, a popularidade crescente e a margem de manobra criativa aparentemente ilimitada da IA a tornam uma armadilha especialmente pegajosa para as pessoas que buscam conteúdo aspiracional.

 

Nicole Greene, analista do setor de IA da Gartner, diz que

 

“Estamos colocando sobre os consumidores o ônus de se protegerem em um ambiente em que a tecnologia está mudando a forma como diferenciamos o real do falso de uma maneira sem precedentes”.

 

“Quando querem algo, a própria realidade é apagada de seus cérebros”, disse a cabeleireira Jenni Robinson. Ela está no setor há 20 anos, e gerenciar as expectativas dos clientes sempre fez parte do trabalho. Mas, para alguns clientes, a explosão de inspiração da IA está ampliando o abismo entre as expectativas e a realidade, deixando profissionais criativos como ela na mão.

 

Quando uma cliente em potencial abordou a planejadora de eventos Deanna Evans com uma visão gerada por IA para seu próximo casamento, Deanna não acreditou no que via. O local imaginário era um país das maravilhas exuberante, com toalhas de mesa de cetim verde sob arranjos florais extensos, iluminação profissional suave e árvores crescendo no chão. A ideia teria custado à cliente cerca de US$ 300 mil (R$ 1,7 milhão), ela calculou, o que era quatro vezes o seu orçamento. Deanna perdeu um negócio de cinco dígitos.

 

Algumas pessoas chegam ao ponto de levar imagens geradas por IA para os consultórios dos cirurgiões plásticos para demonstrar seus rostos ideais, disse Keshav Magge, cirurgião plástico. Assim como as imagens de IA de mulheres em geral, essas representações tendem a ter pele mais clara, seios maiores e narizes menores e mais empinados. “Estou nervoso com isso”, “Tenho receio de que isso crie expectativas irreais.

... ”

 

E nas sessões de psicoterapia ...

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Quando o tema é a Inteligência Artificial, a questão em destaque é o Transtorno de Ansiedade, associado à possibilidade de perder o trabalho remunerado para um “aplicativo que utiliza a IA”.

 

Voltando à sanidade mental, baseada na percepção do Mundo dos Fatos, devemos enfrentar o perigo da perda do trabalho remunerado para a IA.

 

Quando o paciente não é rico - precisa trabalhar para viver - , precisa encontrar um “lugar no mundo” em que terá um trabalho remunerado. Estimulo a cuidar bem do seu CHA – Capacidade (estar tecnicamente atualizado e preparado), Habilidade (ter um bom histórico de utilização da sua capacidade, com resultados demonstráveis) e Atitude (trabalhar no que o motiva) – e a cuidar da sua Empregabilidade  (processo contínuo de manter as suas condições de encontrar um trabalho remunerado, enquanto se mantém com sua reserva financeira).

 

Por outro lado, IA é um tema associado ao “Sistema” onde estamos inseridos. Como contribuição social, podemos fazer algo mais, talvez assumindo uma posicão tecno-ceticista, como fez Cezar Taurion.

 

Referência bibliográfica:

 

Tecno-ceticista em relação à Inteligência Artificial

post de Cezar Taurion no LinkedIn - acessado em 5 de fevereiro de 2025

 

Inteligência Artificial é matemática, não mágica ou um ser inteligente e senciente

post de Cezar Taurion no LinkedIn - acessado em

 

Como a IA distorce o senso de realidade da clientela

Transcrição da matéria do Jornal O Estado de São Paulo, de 2 de março de 2025.
acessado em 27 de fevereiro de 2025

 

Percepção - Mundos: Real, Digitalizado e Virtual ... e a Convivência de Boa Qualidade?

Psicologia - Informe Maio/2022

 

“Toda Ansiedade Merece um Abraço”

Psicologia - Informe Junho/2024

 

A Ansiedade do Nosso Tempo

Neoliberalismo, Trabalho Remunerado e a Ansidedade

Psicologia - Informe Abril/2023

 

O Medo é nosso amigo. A Ansiedade é má companhia

Psicologia - Informe Setembro/2021

 

Empregabilidade - Mantendo o trabalho remunerado

Assessoria de Desempenho - Informe Dezembro/2020